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Vinhedos dos Cantons-de-l'Est: uma visita em 2024

Vinhedos dos Cantons-de-l'Est: uma visita em 2024

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Uma cena vinícola que deixou de pedir desculpas

Há dez anos, o vinho do Québec era tratado com condescendência mesmo por visitantes bem-intencionados. “Interessante para a latitude” era o elogio típico — um eufemismo para “bebível mas nada especial.” Em 2024, essa postura está a tornar-se cada vez menos justificável, e uma visita aos vinhedos dos Cantons-de-l’Est confirma porquê.

Os Cantons-de-l’Est — conhecido em inglês como Eastern Townships — situam-se a sudeste de Montréal, perto da fronteira com o Vermont. O clima é mais moderado do que o resto do Québec graças à elevação e à influência das Apalachias. A Route des vins, que liga a maioria dos produtores da região, cobre cerca de cento e trinta quilómetros entre Dunham e Brome.

O que encontrei em três visitas a produtores

Vignoble de l’Orpailleur (Dunham)

O Orpailleur é um dos pioneiros da viticultura no Québec — fundado em 1982, quando plantar vinha em Québec era considerado uma excentricidade. Hoje produz cerca de cento e vinte mil garrafas por ano e tem uma adega de visita bem organizada, com percurso autoguiado e sala de provas incluída na entrada.

O vinho que me surpreendeu foi um branco de Vidal — uma casta híbrida que resiste bem aos invernos do Québec — com acidez limpa e um floral discreto que combinava bem com os queijos locais da tabua de degustação. O cider de gelo (cidre de glace) que provei no final era extraordinário: feito de maçãs colhidas após a primeira geada, com uma doçura concentrada e complexidade que não esperava.

Vignoble Les Pervenches (Farnham)

Les Pervenches é uma operação pequena — cerca de seis hectares — com abordagem biodinâmica e produção limitada que se esgota rapidamente. A proprietária, Véronique Hupin, recebeu-me pessoalmente num dia de semana quieto de agosto e explicou a filosofia por trás das decisões de viticultura com a franqueza de alguém que não precisa de vender nada.

O Chardonnay que produzem — uma das poucas vinícolas no Québec que consegue maturar esta casta de forma consistente — tinha uma mineralidade que me fez pensar no Chablis a um preço e numa latitude que ninguém teria previsto há vinte anos. Não é Chablis, e não finge sê-lo. É outra coisa: específica desta região, deste solo, deste inverno particular que as videiras sobrevivem a cada ano.

Vignoble Clos Saragnat (Frelighsburg)

Clos Saragnat, de Christian Barthomeuf — um dos inventores do cidro de gelo no Québec —, é menos uma vinícola e mais um laboratório filosófico com tanques de fermentação. A propriedade produz quantidades mínimas de vinho e cidro de gelo com métodos artesanais e uma resistência total à escala comercial.

O cidro de gelo de Saragnat é provavelmente o melhor que existe: denso, complexo, com uma acidez que equilibra a doçura de forma que a maioria dos produtores não consegue replicar. Uma garrafa de 375ml custa entre sessenta e oitenta dólares canadianos — caro, e valia cada cêntimo como experiência.

O circuito prático

A Route des vins dos Cantons-de-l’Est é facilmente percorrida de carro em dois dias a partir de Montréal. As estradas são secundárias e tranquilas, os produtores têm horários variáveis (é essencial verificar online antes de ir), e as aldeias ao longo do percurso — Dunham, Frelighsburg, Sutton — têm bons restaurantes e alojamento de qualidade.

O pico da época está entre julho e setembro, quando os vinhedos estão na fase de maturação e o número de visitantes é maior. O outono — setembro e outubro — é o momento mais belo para visitar: as vinhas em mudança de cor, a colheita em andamento nas propriedades, e a combinação com a folhagem da região fazem desta uma das mais satisfatórias visitas de fim de semana possíveis a partir de Montréal.

Um aviso sobre expetativas

O vinho do Québec não é vinho do sul de França. As castas híbridas que dominam a produção — Vidal, Seyval Blanc, Maréchal Foch — têm características próprias que não se sobrepõem às europeias. O Frontenac noir, uma casta vermelha desenvolvida especificamente para climas frios, produz vinhos intensos e tânicos que podem ser ásperos se não forem bem trabalhados.

O que a cena vinícola dos Cantons-de-l’Est oferece é autenticidade de lugar — vinhos que só poderiam existir aqui, feitos de castas que sobrevivem ao inverno do Québec, num solo e numa luz específicos desta região. Se chegares a isso com curiosidade genuína em vez de comparação com Bordeaux ou Borgonha, a visita vai surpreender-te favoravelmente.

Informações práticas

A maioria das vinícolas fica a uma hora e meia a duas horas de Montréal de carro. As visitas às adegas custam entre dez e vinte e cinco dólares canadianos por pessoa, muitas vezes com degustação incluída. Reserva antecipadamente no verão — os fins de semana enchem depressa.

O guia dos Cantons-de-l’Est tem mais informação sobre alojamento e o que fazer além dos vinhedos.